FREDY - diário de um ato(r)

traduzindo
em edição

domingo, 23 de novembro de 2008

O CORDÃO DE BROMELINA E PAFUNÇO
primeira chegada


Pafunço ia.
-Mamão com açúcar!
É o que ele ouvia enquanto meditava o que a criança falou com a mãe que pareceu ter seis anos enquanto comprava e escolhia a cor do desentupidor. O filho não entendia o porquê aquele homem apanhava do cassetete. A mãe dizia que era a falta de informação... Ele daria a internet. A mãe chorou e fez birra. No cacete rolando eles tomam suco de mamão.
É assim que Pafunço traga a carburação dos carburadores indo pela primeira vez ao cinema depois da expectativa de vinte e seis anos.
O macaco de colar de banana foi o primeiro a pular da tela e a pegar ônibus para comprar fumo. O astronauta divulgava a quem quisesse. A maioria fingiu.
Pafunço sem a menor vergonha abre sua maleta e tira sacos de ervas. Sua moeda.
Um grupo de mulheres se agita e joga pedaços de ouro encomendando todas as ervas e fumo de baependí.
O macaco entra no canhão e é disparado para fora da arquitetura do cineartplex.
O público aplaude.
E o filme fica sem saber o que fazer.
Mudinhas falantes cantam.

Poucas ilhas verdes tombadas.
Prédios de neon. Banners vivos.
Comunidades passam pelos corredores estreitos recebendo injeções no pescoço.

Pafunço manda um pombo eletrônico para Bromelina que voltou de carona na bolsa do pássaro eletrônico. Sentiu felicidade com o vento batendo no rosto. Vai jogando papéis ao léu, fora...

Cheio de penas coloridas um anjo procura.

Bromelina passou horas no jardim de abóboras gigantes em terra que dá morangos em época de figo.
Logo ali perto Pafunço aplaude o samba das borboletas.

Bromelina e Pafunço dão-se as mãos.
Ele engasga lembrando-se da tristeza do filme que não assistiu.
- No sei
Olhava aquela scura sala
Com cheiro de pipoca combo
Coca-cola
Desenhando no ar
Da primeira apagada
De luz
A terra tremeu
E a primeira imagem
Que apareceu
Ficou ecoando
Se repetindo
Mil vezes
em mim
Dentro dos fios
Dos cabelos meus
Entrando para
Minha memória
Pelos pêlos capilares
Fazia coligações
Interurbanas
Só me lembro quando
A luz ligou
E via a parede descer
para ler-se os créditos
que não eram cartões
pois se enchiam de uvas e caquis
as bocas
levantei
tonto caí
do filme que eu não vi
ou do que só eu vi.

Na saída do cinema lembrava ainda à Bromelina que todos fizeram ou tentaram fazer ele entender o que não viu. O filme filmado. Arranjaram dois violões e uma kalimba. O segurança de terno roxo e bigode com o menino ruivo do refrigerante fizeram uma música explicando.

Bromelina e Pafunço foram rodando girando no ar como bonecos de chroma-ki.

O anjo de penas coloridas sobrevoa o país do saco cheio.

No final de uma estrada que parece uma avenida onde carros dirigem pés e mãos Bromelina fecha os olhos. Ela se senta como um grão de pólen retornando ao útero flor.
Já sem mãos do seu cinematógrafo ela não consegue segurar outras mãos ou lamber doce de leite. E parar de lamber doce de leite era inadmissível. Se suspende numa calçada sua e sozinha.
Bromelina vai virando Talianida. O rebotalho não quer chuva de dinheiro. Alguém de óculos pretos nos olhos e com mechas brancas no cabelo do governo traz um santo especial para o despejo...
Bromelina cai da árvore e volta ao corpo.
Acende a luz da sala.
É noite Pafunço está a um canto chorando.
- Porque ela vai embora?
Canta a música da cabeça da rádio dele.
Bromelina assustada sem entender como em cinco segundos os faróis ficaram mais saturados com o arrependimento do sol olhando para Pafunço afobada numa cavalgada um tropel de búfalos solta a barreira da barragem do seu medo e diz simplesmente que ela iria para lá não para ficar eternamente longe de qualquer parede que ela tenha visto nos dias tropicais e dos shows do necessário, mas porque precisa dormir e acreditar no sonho que é dela.
Como qualquer drama que faz qualquer homem virar poeta compositor escritor ela vai embora. Nega o canto do pombo eletrônico, que fica sem alpiste ou maça. Pafunço troca de canal e não está mais na aurora que nasce aos olhos molhados cor de ouro em reflexo de dor.

Um violão se suicida.

O anjo voa de asas coloridas levando livro da brincadeira.
Gêneros literários.
Gaguejando na descoberta da literatura de Machado.
Telefone vermelho toma choque e grita do outro lado informação negra.
O machado matando irmãs árvores no Pará(na)?

Puta sol distorcido faz Pafunço se proteger da chuva.

Todas as luzes estão apagadas.
Pensa Pafunço olhando lá embaixo do alto da colina que toca a nuvem rosa:
- As pessoas de hoje ainda rezam.
Ele sempre que pode lembra consegue tem vontade sobe lá para visitar a comunidade que saiu dos livros de Jorge Amado, que por entenderem sua comunidade como uma classe carcomida resolveram ficar tomando ácidos de bolo de chocolate a sorvete de uma nota sustenido, fazendo experimento de teatro dentro de tubos de ensaio e clones no teatro, já sem palco, super aerofônico.
Em cima das nuvens fica mantendo a concentração tranqüilizante com reprises nos sonhos dos que não abrem o cello e vão lavar a roupa, a louça.

Bromelina não aparece por duas primeiras primaveras que passam sempre depois do inverno.

Depois de deixar o clone se tratando Pafunço tropeça numa raiz gigante de uma árvore de acerola que nasceu da noite pro dia no meio da avenida enquanto os operários trocavam as tartarugas velozes.
Ele cai batendo a boca no chão, sentindo o gosto de sangue que lembra da boca de Bromelina quando voavam de bicicleta. Onde ela bateu o joelho na boca fazendo sangrar.
Pafunço a beijou na lembrança.
Uma gota do céu dos seus olhos cai.
O trovão no peito o choque galvânico das nuvens saiu em estática de urro pela garganta uma tempestade.
No primeiro mês ninguém lhe deu atenção. Porém suas lágrimas começaram a criar erosões pequenos sulcos corroendo e escavando a terra de barro aos pés da árvore, corroendo até a pedra. As pessoas da cidade tentavam alcançá-lo mas as ondas contra são mais fortes. Uma índia tentou gritar transformada em agro pecuária amiga uma projeção astral que ela está no lugar do palmito dentro da palmeira. Mas ninguém pode cortar a árvore senão ela vira palmito. Ela tem que sair sozinha, como borboleta. Sozinha e de asas. Se quiserem adiantar sua volta e cortar a árvore terão que começar do zero.
Isso fez do choro maremoto.
Passam dois anos de águas sem fim.
As pessoas começam a criar casas barco e vão conhecer o país da correnteza a que leva todos para longe de Pafunço.
Com os anos suas trovoadas se tornaram eternos lagos correntes cristalinas.
Pássaros atravessam o continente e vão no verão se banhar e cantar em poças paradas perto dos seus pés. Cardumes vão contra a correnteza e entram em seus olhos de Pafunço para procriar. Nessas épocas ele ri chora de rir de saudade.
No inverno animais se aproximam. A correnteza triste não esfria. A fonte é um coração quente. Como o choro é o fim e o começo no rio ele escorrega e é levado. Vai tentando se equilibrar. Pára de chorar. Vai parando. E o rio vai secando em um dia sem sol.
Ele olha para o curso quase totalmente vazio e as vidas que morreram sufocadas sem água quando ele parou de chorar. Ficou absorto de como suas lágrimas sustentavam tantas vidas.

Os neons das cidades estão vivos tomados por raízes plantas árvores que se assimilaram à criação humana.
A descoberta. Algumas árvores no escuro ficam acesas, e por aí vai a infinitude de misturas.
Umidade. Cheiro de terra em dia de chuva ou de mofo eletrônico.
Algumas crianças brincam na calçada de barro molhado. Elas deslizam e fazem bonecos delas. Às vezes não se sabe quem é quem quando estão cansados.
Uma vez um dos meninos dormiu sob o sol. Acabou ficando dentro de uma crosta de barro por três dias até que choveu.

O anjo vem de asas de metal um metal do centro da terceira terra no segundo coração do anel galáctico da escrita minha e sua leitura.
O anjo se conecta a raízes de procura.
Ervas queimam.

Num dia de seca nos olhos e saudade Pafunço vê suas pernas caminhando depois sente os olhos olharem as casas passando lá ao longe da margem da estrada. São casa prédios quitandas cortiços crianças senhoras de tanga raças colônias formigueiros...
- O tempo - pensa o corredor solitário - são muitos.
- O tempo passando de mim e de lá são diferentes. Existem os mundos.
E ele chega a um rápido refrão de conclusão sem rima.
Que até essa idéia musical de mundo paralelo essa teoria mesmo não abre portões dos mundos. Essa lógica do lado do paralelo do em cima e embaixo é desse mundo. Talvez para outros e nos outros mundos não houvesse a matemática da gravidade lógica.

Mãos Pafunço apóiam a cabeça. Ele lê dentro de uma xícara de café uma cidade que submersa guarda os segredos e os paradeiros das pessoas perdidas.
Seu destino na borra do café com leite.

Seu coração pulsa e move os braços dele, a consciência vai acordando.
Ele finalmente vai tirar seu carvão enterrado, em pressões de anos milenares.
Ele abre o bolso enterrado arranca uma borracha que guarda uma pedra.
Vento. Asas. Música sacra.
Desce o anjo por trás da montanha. Aparição aos olhos Pafunço.
- Finalmente... encontrei-te!
Pafunço não foge. Fica congelado. Seus pés fincados no chão.
O anjo entrega-lhe a semente e uma rosa dos ventos para ele chegar à cidade.
Olhos arregalados Pafunço. A semente que não parece uma semente é o germe da palmeira, ele enterrará sua pedra carvão com a semente. Anos depois ela sairá de lá de dentro com o carvão virado pedra preciosa de união. Ele encontrará sua musa em poucos anos.
Os animais fiéis de sua dor tomarão conta de sua plantada até a mulher sair da palmeira.

Terreno. Terra. Pássaros buscam galhos fazem o ninho do berço palmeiral. Lobos viram escavadeiras. E no final uma festa.

Pafunço vai embora quando tudo está bom. Vai encontrar a cidade. Depois vai retornar alguns anos para encontrar a árvore. A palmeira. Bromelina libélula.
Um pouco mais ao longe da festa na estrada a rosa canta um canto de rota de sereia. O anjo sopra no ouvido.
- Você vai
Encontrar a cidade inundada
Cuidado!
Primeiro procure o velho que te dará
A experiência do oxigênio
Chamado argônio
Coma o que ele der e cheire o argônio
Risadas você pode dar como com suas ervas
Ele ajudará a chegar mais fundo.
Lá em baixo procure casas ainda conservadas
Inteiras
Veja gavetas conheça e abra baús agendas de crianças
Cartas de despedidas
É lá que você descobrirá onde ela está
Você lerá o que ela ainda vai escrever e te descrever
Mas cuidado! Não se assuste se o que as águas
Negras da cidade te mostrar
Você vai ver se o rio quiser te mostrar
Os mortos seus
Seus amigos, familiares, amantes
Todos seus conhecidos que morreram

A cidade é uma planície quieta de açude.
Pafunço entra na água gelada com o argônio na cabeça. O velho fica sentado só rindo. Tem o rosto todo enrugado e um trompete todo enferrujado num pote de vidro pendurado na entrada da sua cabana.
É tudo tão escuro. Ele desce só com uma corda para não se perder. O argônio segurara por horas sua presença submersa.
Os prédios abandonados vão surgindo parques escolas... ruas... tudo apagado.
Silencioso. Silêncio irritante. Pafunço entra em alguma casa. Abre uma gaveta e nenhum papel, nenhuma carta, nenhuma música dela... Vai ficando eufórico procurando por todos os lugares submersos. Vultos de um amigo, a mãe adotiva morta, o avô sem perna vão bailando nas sombras... Ao abrir uma porta, Bromelina aparece branca sem os olhos com os cabelos voando na água e seu vestido de defunto de filme de terror. Pafunço fica doido. O argônio acaba não se lembrava o que o anjo falou. Tudo é ilusão. A morte é o medo de nascer.
Ele fica sem ar, engole água enquanto a imagem dela vai desaparecendo com areia na água. Ele vai se afogando, ficando roxo gritando para dentro com a água engolida.
Tremidas convulsão a cabeça ecoa uma nota B R O M E L I N A.
Bromelina B R O M E L I N A B R O M E L I N A
Os olhos vão fechando. Ele vai virando a própria solidão das cidades submersas.
Pafunço morre.

Luz. Azul do céu. A luz se abre. Ele cai. Parece sair de uma incubadeira vertical. Cai de quatro cheio de placenta traz nas mãos um diamante suas costas fazem movimentos e secam as asas. Asas!
A palmeira verde faz sombra do sol da aurora e orvalho a mão delicada de rosa acaricía o rosto de Pafunço rosto maduro tranqüilo apaixonado.
- Eu morri.
- Não. Você nasceu. Estava te esperando.
Agora vamos continuar.

(...)

Final da primeira história
“O CORDÃO DE BROMELINA E PAFUNÇO primeira chegada”
Fredy Állan
22 de novembro de 2008 RJ