FREDY - diário de um ato(r)

traduzindo
em edição

quarta-feira, 23 de abril de 2008

CARTA de AMANTE

Carta de amante para Brasília e a nova UNIVERSIDADE



“A vida, a busca, a emoção das descobertas... Isso é que é importante. Foi e continua sendo, sempre.”

Dulcina de Moraes, em entrevista a Sérgio Viotti.

Dulcina é e foi uma mulher que agiu para o teatro iniciando uma universidade no Rio de Janeiro, que foi transferida e edificada em Brasília.

Ela como ícone aniversariante, nascente, que deu a vida pelo desenvolvimento da arte tomamos como ponto de partida e força de impulso para nossos movimentos, que é o de participar junto a uma gama de artistas a nossa renovação, o encontro, nosso jeito de atuar no Rio de Janeiro em comunicação criativa constante dentro da cidade, São Paulo e Brasília.

Dulcina, na vida sua do teatro, impulsiona cada vez mais qualquer um que se dedique a viver daquilo que ama. Eu amo a minha vida no teatro. Onde assumimos todo o nosso ridículo, todo nosso medo e fazemos o real se desdobrar, se inverter...

E ela fazia isso. Na vida. Fez no Brasil.

Ela nasce (em 1908) quando o teatro moderno nasce. Os teatrólogos descobrem a luz. Descobrem a edição no palco. Essas foram evoluções propostas, por naturalistas, realistas, simbolistas, etc, com Antoine, Copeau, Craig, Stanislawiski, Romain Rolland,Apollinaire, Grotowski, Vilar, Ronconi, Artaud, Brecht, Piscator, Gropius, Max Reinhardt, Ariane Mnouchkine... Fora do Brasil.

Cada um em sua época, assimilando o anterior e impulsionando pra frente. Pondo a teatralidade, no ator, na luz, na arquitetura, no texto.

Sempre em busca comum do significado da palavra teatralidade.

E ver com olhos livres as buscas e as soluções finais. A teatralidade foi sempre, e é, um estado de espírito e poesia. Escuta. Expansão.

Ela vivendo no teatro mambembe até a universidade, aqui no Brasil. Nasce e quase alcança 100 anos na atividade do teatro que se desenvolve no Brasil. Atos que ela revolucionou, e que revolucionaram em torno dela.

Agora temos que nos concentrar na formação de público. E na nova forma de ver o mundo, esse Brasil de cada um, o tempo urge e clama uma nova forma de obter conhecimento.

Dulcina viu no amor ao teatro a sua universidade. Por ser uma mulher de teatro completamente empírica, que já trabalhava memória emotiva nas peças antes mesmo da primeira tradução de Stanislawski chegar ao Brasil; Entre outras ousadias esquecidas no teatro Brasileiro e engolidas pelo cinema e outros grupos que a negaram com o passar do tempo; Como o palco cinético em uma de suas montagens; um palco com 5 palcos, em uma dramaturgia cinematográfica, simultânea trabalhando a atmosfera do naturalismo e distorcendo-a em torno.

Mas ela se preocupou em como desenvolver as aptidões cênicas em “alunos” para que descubram sua força, para que fizessem teatro. Conheceu Brasília e viu naquela cidade vazia, ainda nascendo, um novo mundo. Um mundo literalmente sendo construído. É quando ela bate de porta em porta na busca de conseguir o dinheiro para fazer a primeira Universidade de Teatro do Brasil, responsabilizando todo o governo pela educação e cultura, e usando todo seu charme e nome que tinha como dama do teatro. Até que ela consegue um terreno, quase que por acaso, em um lugar super bem localizado em Brasília. Mas como qualquer coisa que precisa ser desenvolvida e conquistada, a idéia da universidade que ela conseguiu construir foi ficando pra trás, pois se tornou mais uma entre muitas outras perdidas no Brasil. Essa Universidade desenhada pelo Niemeyer, hoje falindo e caindo aos pedaços, é personagem atriz de teatro em palco Brasileiro.

Ela fez a universidade num levante pelo desenvolvimento da carreira cênica. E hoje em pleno século XXI, não devemos nos relacionar e nos conformar com a universidade no formato de ensino que se encontra hoje. Pois todo ano entrarão e sairão alunos, que se apaixonarão ou não, pela história da atriz, vestirão as roupas que ela usou, farão o papel que ela fez, se formarão, e irão embora. Esquecendo que teatralmente a maior força de ação que pode vir de uma universidade da Dulcina, é a tomada de partido, de atualização, da necessidade de avanço e desenvolvimento do ensino. Reinventar a universidade.

Refinar a troca.

Transformando-a em centros de pesquisa. Onde todos os “artistas” tenham espaços para obter conhecimento, trocar, formando, descobrindo.

E temos...

Impulsionado pelos modernistas e Antropófagos (Oswald de Andrade, Tarsila do Amaral, Di Cavalcanti...), a Universidade Nova Brasileira é projetada, e assumida pela primeira vez em São Paulo, pelo grupo Teatro Oficina. Grupo que também se encontra dentro do centenário da atriz completando 50 anos. A UNIVERSIDADE DE CULTURAS BRASILEIRAS ANTROPOFÁGICAS nasceu com a peça Os Sertões e no movimento Bixigão. Trabalho de atores do Teatro Oficina com adolescentes e crianças do bixiga e de outros bairros. No desenvolvimento gradativo, o refinamento da inter-relação entre o que se diz professor e aluno é desenvolvido e projetado para frente. Até alcançar a individualidade que faz você estar em um coletivo. Atrás do seu interesse pela descoberta, especifico e técnico do desejo interior, da nova forma de passar o conhecimento, e convocar aqueles que podem alimentá-lo.

“(...) Eu estou contribuindo, como tantas outras pessoas, para distribuir conhecimento, a noção da responsabilidade do teatro. O prazer do teatro. (...)”

Dulcina.

E para podermos começar a discutir nacionalmente a idéia da Universidade é preciso que antes de tudo os elos de encontro sejam firmados. Aqui no Rio estamos querendo e vamos conquistar um espaço, antes de ficarmos no teatro Dulcina na Cinelandia, para que possamos desenvolver o estudo do corpo do ator no Rio de Janeiro, e também o estudo teórico de muitas vidas anteriores para o futuro teatro daqui. Esse é o cerne da Universidade, que plantaremos aqui com esse centro de estudo, e que queremos que seja mais um lugar em busca de um novo campus, uma nova universidade. Assim juntaríamos em ligação prática de estudo e ocupação Rio de Janeiro, São Paulo e Brasília.

E juntos poder pensar, praticar a Universidade buscada. E concretizá-la.

“...Era um sonho, talvez demasiado. Mas sua personalidade ultrapassa os limites do costumeiro. Fé inabalável no que se decide a realizar.”

Sérgio Viotti, comentando Dulcina e a Universidade.

Para dar esse início da comunicação, vamos aqui no Rio começar um ciclo de leituras de peças que ela fez. Que sejam importantes em sua vida, como tem que ser na nossa, as peças tem que contar a nossa história a ser superada, como todo o teatro dentro desses 100 anos de carreira da atriz.

Treinar a escuta.

Também fazemos aqui um trabalho de corpo nominado, inspirado por São Paulo: TRABALHO DO CORPO DO ATOR DO TE-ATO NO RIO DE JANEIRO.

Onde atores, indivíduos, propõem seu estudo de corpo na prática. Proporcionando uma rotação de exercícios dentro de uma busca pessoal de cada um, passado para o outro ator, afim de conseguir se ver no outro. Uma relação entre os amantes do/no teatro. Fora de grupos. Indivíduos se encontrando e praticando o corpo.

E mais o ato em frente ao Teatro Dulcina na Cinelandia, que justifica e motiva toda a força para renovação de teatros, sendo signo de todos os espaços vazios do Rio de Janeiro. Mal cuidados. Entramos e ocupamos. Esse ato é reivindicador. Dos artistas, que estão isolados, para que se encontrem, tomem conhecimento pleno de como estão as verbas públicas dentro do Rio, e como dividi-las para desenvolvimentos dos grupos. Grupos esses que precisam estar sempre nascendo e querendo se encontrar com outros para essa reivindicação.

E, principalmente, um chamado para o governo e diretores de órgão públicos artísticos, para que olhem as propostas abertas e proporcionem ao público em formação a abertura dos espaços e tomadas de lugares fechados. Nós temos uma proposta estética, e financeira para o Dulcina. Queremos a reunião com os engenheiros, o diretor da FUNARTE Celso Frateschi, e todos os artistas interessados no renascimento desse e de outros espaços.

“Caminho orientada pelo sentido quase religioso que tenho do Teatro, fazendo o possível para atingir os pontos mais altos e as fontes de beleza que nunca serão suficientemente exploradas. Não entra nesse meu desejo de procurar sempre o melhor qualquer elemento de superestimação do meu próprio valor, mas apenas a convicção de que o artista traz a tarefa de buscar e revelar todas as coisas belas da vida, na missão de aproximar, melhorar e harmonizar os seres – uma missão de comunicação humana. Não há, portanto, sentimento de vaidade individual nesta espécie de profissão de fé que estou fazendo a você em relação ao meu programa, ao que eu já fiz e ao que pretendo fazer em teatro. Há simplesmente a declaração sincera de um compromisso a que me sinto obrigada por um imperativo muito interior, muito íntimo, ao qual não desejo fugir”

Dulcina

Assumir em Brasília esse bastão, como indivíduos-força e promover a comunicação com as artes no Brasil. Fazer essa ponte e realizar algo em Brasília só tem a fortalecer a reivindicação para esse levante cultural, que o Brasil precisa.

Para isso, todos os artistas que falam, reclamam, vêem as brechas sendo feitas, precisam se coroar e começar a mobilizar pessoas, pelo coração, o corpo todo, alma, para a mobilização de uma ida a uma nova Universidade. Uma nova formação. Uma nova forma de desenvolver cultura. Teatro, cinema, música, artes visuais, universidade... está nas mãos de quem tem coragem. Ou fazemos ou nos fudemos.

Pratiquemos nossos atos, e encontros.

Escrevamos, desenhemos, componhamos,

Atuemos, gozemos e façamos.

Coragem.

Comendo burocracia. Revendo o Brasil.

Nascendo de novo. Saindo da InCUbadeira.

OURU

MERDA

Fredy Állan

bycho carpynteyro

OLARIA de São Sebastião

segunda-feira, 21 de abril de 2008

BLOKO

Hoje

Primeiro dia do OUTONO e os soluços longos dos violões.

De manhã, os atuantes do teatro no Rio, que buscam outro corpo, se encontraram.

E malharam o corpo. Suaram. Correram muito e correram veloz como Mercúryo e alcançaram, no lugar, a ligação do teato.

Depois de treinar os músculos, a resistência, preparando o corpo pra dominar a mente, trabalhamos o espiritual, os canais que abrem passagem ao deus da Olaria no terreiro do Pé de Laranjeira.

Hoje houve uma hierofante entre os praticantes.

Nós que estávamos exaustos no meio do trabalho, terminamos todos água...leves, bamboleantes, passando o conteúdo vazio, na hora enchido com nossas flores terceiro olho.

Dali podíamos fazer tudo, sem falar. E continuamos no axé. Na paz conquistada por um dia de treinamento. Porque como diriam, é um luxo em meio a cidade que corre, os que podem pelo iniciamento do rito a ser aberto, se encontrar e meditar, suar, e trabalhar o espírito, a alma, que é o corpo. È um luxo poder fazer isso, ou mesmo querer e ainda por enquanto não poder.

As coisas são conquistadas, nosso ócio assim como trabalho.

E um será no outro.

Depois no final da tarde, lemos a MORTA.

O 1° quadro. O que por nós será praticado, atuado no Dulcina.

E os corifeus desejosos que lá estavam, começaram a se embrenhar na mata, na ontologia... do texto.

Na prática da fala.

E a fala pediu o corpo.

Nasceram novas camadas e a retomada de A OUTRA ser a telúrica Terra... numa discussão profunda, para a superfície ser refinada.

O desejo foi tanto e as surpresas de novas pessoas lendo, que fomos a praça, instigados por um sentimento de poeta. Do outro lado da rua. Lá fomos nós, que depois de meditar a rubrica, que diz que os personagens separados não estão juntos, mas na ação são coletivos.

Uma coisa assim...

Já havia a meditação dos personagens planetas, pra entender a predisposição física e como eles se inter-relacionariam.

Mas o que ele diz é que eles não se comunicam entre si. O que nos deu um jogo, como evolução da primeira autópsia, onde colocamos todas as falas dos personagens juntas, como um monólogo pra ver realmente se eles falavam sozinhos. E falam como falam coletivamente, e não dramaticamente senão fica chato e óbvio. Isso na teoria até é compreensível. Mas vai falar o texto sem escutar o outro, sem pegar o fio da meada, da música do corpo-instrumento do outro. Nós, que nos treinamos a escuta. Fazendo assim toda vez os personagens ficarem naquele mundico dramático, psicológico, enquanto queríamos é analisar todo esse princípio. Ontologia. Pré-dispor. Como planetas que demonstram as tendências de como eles influenciam alguém.

Os personagens sim, têm um monólogo sozinho, e para nossa confusão Oswald os coloca numa construção dramática, de prosa, conversa. Temos que fugir. O problema não é aquela mulher estar morrendo enquanto uma outra dentro dela, mas fora, pulsa querendo retornar, e um poeta não querendo que ela morra, com um hierofante marretando morais. Mas sim o que ela significa, -qual o signo pra ela?-, ou o momento, o lugar que estamos.

Vimos então que as frases são independentes da construção prosa. Nós poderíamos refazer o texto com aquelas falas. Fizemos um exercício: como cada um tinha em mãos algodão e sangue um texto, só com as falas dos personagens isolados, não iríamos seguir a ordem do Oswald, do texto. Nós iríamos na escuta, no significado da fala do outro; e fizemos. Muitas coisas legais surgiram, mas ao terminarmos ainda ficou aquela questão: nós estamos fazendo e estabelecendo uma relação um com o outro, embora as ordens das falas estejam ao léu, no desejo do ator. Mesmo que não fosse os personagens, e fosse agente. Ao mesmo tempo que a idéia primordial era não estabelecer uma prosa.

Mas o texto é um jogo onde tudo se encaixa, como for, nas seqüências ou formatos em que for tocar a música da partitura do texto. Daí pronto. Entendemos. Entendemos quando fomos à rua, na praça. Em que um menino toda hora ficava dizendo NÃO. Agente fazia uma fala e ele dizia NÃO. E uma boa parte do texto, conseguimos deixar o menino no centro de uma roda, e todas as nossas falas eram pra ele. Os quatro personagens que antes discutiam um com outro, começou a somar idéias, e a expor seus movimentos desejos e recalques, mas para o menino, falando com o menino, ele “foi” todos os personagens, dependia de quem falava.

Assim fizemos o que? Fizemos os personagens agir coletivamente. Era isso que faltava. A ação primordial da cena com essa direção da rubrica. Nós que tínhamos e temos algo a dizer além daquela música, personagens, fazemos os personagens falarem seus textos como um chamado de um corpo só. Como se os que estão falando fizessem parte de um corpo maior, do qual eles fazem parte, e no momento ainda circundam no entorno de sua parte maior, e porque não, agora, antagônica, até retornar...

Essa magia descoberta, é foda na prática. Porque ainda voltamos para a sala, e fizemos cada um encostado em uma parede. Ainda tínhamos aquela ação coletivamente, mas logo estávamos não falando pra algo sobre algo, estávamos de novo, e num círculo fechado em que os personagens não saiam do drama, ou do que estávamos descobrindo um do outro através do texto, ou seja estávamos no círculo fechado. O que nos fortalecia no “olhos nos olhos”. Faltava ali na sala nossa ação coletiva. Aquela que o menino provocou em nós juntos, e falávamos só com ele, todos falavam com ele, éramos um só, querendo que ele fizesse outro algo. E era jogar com agente e escutar também; e ele fazia. Mas com NÃOs.

Foi isso que constatamos. E levantou-se questões sobre cada frase dos personagens sentidas. Enfim foi um encontro de encontro mesmo, pororocando e abrindo abcesso. De teato, e que na loucura da descoberta fomos a um lugar oposto ao nosso em que estávamos o dia inteiro concentrados; e nos chocamos com as milhares de disponibilidades, e de dimensões quando se está em um lugar aberto e onde tem crianças principalmente. A coragem. Ou não só o lugar aberto mas com certeza, maior do que a preparação, ou pelo menos a dimensão da preparação ainda não chegou. Início. A comprovação do rito ligação e poesia. Elas, as crianças, ficaram o tempo inteiro com agente, rindo e gargalhando. Tinha umas meninas que ficaram andando atrás do poeta, como sua sombra.

O menino dos “NÃOs”. Uma bebê de carrinho com seu pai que apareceu quando a Beatriz se perguntava porque tinha nascido, e o pai entendeu. Enfim o texto embora ainda bem virgem, na mão, tomou a espacialidade que precisamos, para poder não fazer os personagens conversarem entre si, mas agirem coletivamente. E daí enfim surgiram muitas coisas que quem viveu vivo tem que estudar entender para poder no próximo jogo já dar seus passos, seu ritmo, e jogar, estimular. O objetivo é o coletivo, agir coletivamente. E hoje se agiu coletivamente, fazendo como o Zaratustra nos cantou, PROCURE ZEROS.

E daí tinham muitas pessoas.

Evoé.

Começou. Quem quiser chegar pro ato chega. Que quiser aparecer só no ato, apareça. Só não fique incomunicável. Nós criamos a comunicação, não importa a distância; a distância é outra coisa.

Pelo amor recebido hoje. O passe. E coragens.

Vamos em frente, ao refinamento da nossa atuação.

Sabemos o que é o medo?

MERDA

ENFERMEYRO CARPYNTEYRO

Quarta-feira, 20 de março.

1° dia de outono.

Em São Sebastião.

Amor e saudade